Escrito por Reaça às 12h45
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CARTA A UM AMIGO
Brasil, 11 de dezembro de 2004.
Prezado Francis,
o poço realmente não tem fundo. Passaram-se sete anos desde que você jogou a toalha e as coisas só fazem piorar. Não em Nova York. A ilha continua exatamente como a deixou. Espetacular. Estive lá há alguns anos. Pena não ter conseguido ver o diálogo das Carmelitas que tanto recomendastes. Até apareceu oportunidade para ver suas meninas dançando ballet, mas para mim, continua sendo uma perda de tempo no espaço.
Me refiro à terra do NhôNhô. O `menas verdade` se elegeu presidente. Meu consolo é que tu não viveste para ter tamanho desgosto. A guera civil que previste caso o idiota barbado ganhasse, ainda não chegou. Ainda. Talvez chegue. É bem provável que não porque o brasileiro é um eterno banana. Acho que finalmente têm um presidente condizente com o QI da população.
Não se preocupe com o erro de avaliação. O governo do sujeito é uma desgraça. Mantém-se na corda bamba graças ao modelo bolado pelo Fernando Henrique, aquele mentiroso que te prometeu pivatizar tudo quando chegasse ao poder. Quando sentu na cadeira, vendeu menos estatais que o Itamar Franco. A coisa está tão feia que a alternativa ao PT é o PSDB. O país está dominado pelo esquerdismo. Tem gente que acredita estarmos em uma fase intermediára para o socialismo e não estão errados. A imprensa continua igual. 95% dos jornalistas são militantes do partido do torneiro-mecânico. O presidente é amigo de ditadores, desde que sejam de esquerda. Apareceu até um projeto de Fidel na Venezuela.
A corrupção é gigantesca porque o Estado está tomado por militantes do Partido. Gente graúda de Brasília diz que a propriedade privada não é um direito absoluto. Aquela organização criminosa, o MST, comete barbaridades e ministros definem o movimento como algo dentro da normalidade democrática. É até proibido ter arma de fogo no Brasil agora! Quer dizer, os cidadãos de bem não podem. É monopólio dos bandidos. Os vermelhos tomaram gosto pelo poder e, pelo jeito, meu caro, vieram para ficar por algum tempo. O negócio está feio pacas, tanto que o sinhozinho também dirige um tal Foro de São Paulo, entidade que reúne gente da melhor qualidade, como as Farcs colombianas e o Sendero Luminoso.
Francis, meu velho, se existe esse troço de reencarnação, não volta, não. Só se for para realizar seu sonho de morar em um lugar onde não conhece a língua para nem ter de dizer `bom dia`.
A questão fiscal ainda atravanca o desenvolvimento. Se, há quase dez anos, você se assombrava por não aparecer nenhum poderoso capaz de propor redução de impostos, ficaria mais abismado em descobrir que ainda aguardamos tal santo. A tunga nos contribuintes (que o metalúrgico disse serem `privilegiados`) já está nos 40% do PIB. Como podem querer sair da miséria com uma estatística dessas? Se o Roberto Campos estiver por perto, deve estar gargalhando. Depois me manda uns aforismos novos dele, por favor.
O mundo tá uma zorra. Os islâmicos derrubaram o World Trade Center e os americanos chuataram o traseiro do Taleban. Escorraçaram-os do Afeganistão. Depois invadiram o Iraque e enjaularam o Sadam Hussein. Mesmo assim, a imprensa brazuca diz que a campanha do George Bush no Oriente Médio é um desastre...
Aviso: Bush não é o pai, vice do Reagan, não. É o filho dele. No Brasil, dizem que ele é burro. Como se o presidente daqui fosse Bertrand Russel. Você já sabe há muito tempo o quanto a imprensa brasileira é irrelevante. Não percamos tempo com isso.
O Bush acabou de se reeleger, diga-se de passagem. Foi uma beleza, meu velho! O rival democrata era um tal de John Kerry. Mesmo sendo um sujeitinho inexpressivo, ganhou ares de estadista porque todo o establishment estava com ele. Era o candidato da ONU, das ONGs, dos atores de Hollywood... you know, essa horda de canalhas. Perdeu feio. Diferença de 3,5 milhões de votos. Se você era impagável falando daquele priápico do Clinton, teria feito miséria com esse Kerry. Uma farsa absoluta.
Acertaste em cheio na questão Israel-Palestina. Não tem solução. Desde que você se foi, está na mesma. Se um dia você passear pelo inferno e encontrar o Arafat, manda ele pegar o prêmio Nobel da Paz and stick into that place where the sun doesn`t shine. Ainda acredito na sua aposta: alguém vai acabar sendo atirado no mar e não vai ser Israel...
Na África, os crioulos estão se matando no Sudão. Não mudou nada.
Penso em pedir asilo no exterior. Quem sabe uma bolsa. Será que você não poderia me dar uma força com o pessoal da Fundação Ford? Em vez de gastarem um dinheirão patrocinando os imbecis do Fórum Social Mundial, poderiam arrumar uns trocados para financiar uma humilde especialização no mundo civilizado. Uma carta de recomendação já ajuda. Como gostava de escrever você, até agora eu só mifu, malandro...
Cuide-se e minhas sinceras saudades. Você não tem idéia do quanto faz falta.
Escrito por Reaça às 02h00
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A SAÍDA É CUMBICA
Tomei uma decisão na vida. Tenho que ir embora. Não precisa ser em definitivo, embora a idéia me seja agradável. Pode ser por dois anos. Ou três. Viver no Brasil está me afligindo. Massacrando. Me avilta saber que um amigo que resolveu tetar a sorte como mão-de-obra barata nos Estados Unidos já comprou três apartamentos em São Paulo.
A afirmação acima pode causar um mal entendido. O problema não é apenas monetário. É cultura. Estilo de vida. Saber que existe um mundo lá fora esperando para ser explorado, enquanto estou enfurnado no fim dele. A vida é curta, a rotina estafa, oprime.
Saber que estou mais perto da morte a cada dia e corro o risco de chegar a ela com uma existência sem sentido é desesperador. Não gosto de Chico Buarque, mas atormenta a possibilidade de me calar com a boca de feijão.
Não estou disposto a lavar pratos na civilização, embora não tenha problemas em estar empregado na Irlanda em um cargo que poderia ser considerado 'inferior' ao que tenho no Brasil. Não existe diferenca nenhuma entre jornalista e garçom. O último ainda leva vantagem. Recebe gorjetas. Status é importante, mas em algumas ocasiões temos que sacrificar algo em nome de um objetivo maior.
Se conseguisse uma bolsa de especialização na Europa, seria o paraíso. Não custa tentar. Vamos à luta porque, como diria Janer Cristaldo, a vida é uma só. E não tem estepe.
Escrito por Reaça às 13h17
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